Momento de Dureza da Vida

Passamos momentos na vida da gente, que jamais os esquecemos. Um desses, foi o de nossa chegada ao Estado de São Paulo, no início de 1964. Chegamos na Estação do Braz, após uma cansativa viagem de cinco dias e lá nos esperava o meu irmão mais velho, Miltinho, contactamos com ele, e logo depois, fomos pegar o trem com destino à Ribeirão Pires, onde iríamos de início morar.

Lembro bem, que nos meus tenros doze anos de idade, chovia torrencialmente. Estávamos entupidos de bugigangas arrumadas em velhas malas e sacos ou caixas, não me lembro bem. A chegada à Ribeirão Pires, por volta de oito horas da noite, também chovia sem parar. De lá, pegamos uma Kombi, que o povo tem a mania de chamar de perua, para nos levar ao destino final, juntamente com demais familiares e os apetrechos para uma velha e rude casa, que meu irmão havia alugado na periferia daquela cidade paulistana.

Na verdade, foi como uma viagem relatada na Triste partida, de Luiz Gonzaga. Foi um sofrimento e uma tristeza só. Chegar naquele lugar distante, sem conhecimento com ninguém e no passar dos dias, tímidos, com medo do desconhecido e de logo, fomos tomando pé nas coisas, e nos sentimos não só oprimidos por àquele povo, mas discriminados, ao sermos chamados de baianos e de cabeças chatas.

Àquilo para mim e nossa família, era muito humilhante. A saudade de nossa terrinha era tanta, que muitas vezes chorava baixinho, principalmente quando ouvia no radinho de pilha, uma música de Roberto Carlos, que estava fazendo um tremendo sucesso na época, que se chamava “Quero Que Vá Tudo Pro Inferno”. E eu queria mesmo, desde que voltasse para Buíque e o resto que fosse para o Inferno.

Com o passar do tempo fui estudar numa escola chamada de Dom José Gaspar, vizinha à Igreja de Ribeirão Pires, que não sei se ainda existe, mas na própria escola, já naquela época, sofria muito com o “bulling” da discriminação e a cada dia que passava a saudade aumentava, porém ainda assim, mesmo na revolta, a gente tinha que se aguentar naquele lugar distante.

Com o passar do tempo, eu e demais familiares fomos morar na Vila Ema, em São Paulo, capital e passei a estudar à noite, pois trabalhava dez horas durante o dia, na Escola Estadual da Vila Zelina, quando, qual não foi a minha alegria, me demitir da Fábrica de Brinquedos Bandeirantes, onde trabalhava de peão e voltei para Buíque, quando já estava na casa do vinte anos de idade.

Achei por bem hoje em contar parte de minha vida, somente um trechinho, para muita gente se aperceber, que nada na vida vem com muita facilidade e de que o mundo, é o que é para nós, uma grande escola de vida. Por isso mesmo, o que vem fácil, com a mesma facilidade se esvai em fumaça.

Em Ribeirão Pires também morou um grande buiquense, Luiz Pinto, irmão de Madrinha Alta, mãe de Blésman Modesto e também, de João Pinto. Luiz Pinto formou uma grande família naquelas plagas, tendo chegado a ser Secretário do Município de Ribeirão Pires. A foto desta matéria e da Igreja Matriz de São José, se não me engano, na praça central da cidade.

Pelo sim, pelo não, Ribeirão Pires se tornou um cidade referencial em minha vida nas agruras de vivência naquele lugar infernal em que muitos retirantes nordestinos, ainda para lá se dirigem em busca de dias melhores, porém, se naquela época já era ruim, imagine nos tempos atuais!

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Manoel Modesto

Advogado, escritor, poeta e presidente da ABLA (Academia Buiquense de Letras e de Artes)

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