Sou Filho do Conflito

         Pelo visto minha vida está fadada a nunca ter paz. Afinal de contas, sou filho de uma vida conflituosa, em que nasci nas adversidades, nas durezas e nas cruezas da vida.

         No decurso de meu viver, desde tenra idade, nunca tive paz em minha vida. Os conflitos interiores me perseguem, somados aos exteriores que tanto repugno e abomino, porém, pelo visto, não vou me desvencilhar de nenhum deles até o fim de minha vida.

         Estou numa idade que deveria ao menos ter um pouco da tão sonhada paz interior, sem as influências exteriores que me perseguem no meu viver. Parece que tudo vem assim de repente a perseguir o pouco de serenidade que busco ter em minha vida, mas não consigo alcança-la de forma alguma. Talvez só mesmo o dormitar derradeira venha a dar um ponto final em tudo isso, porque se não me presto mais para nada, nem mesmo para pacificar partes entrelaçadas em mim e de mim mesmo, então que vida é esta para se viver?

         Sofro muito no meu eu interior, quando não posso atingir o que mais queria em minha vida, que seria a verdadeira paz e a preservação da vida dessas minhas partes desconexas, mas isto em muitos casos não depende tão-somente de mim, mas de fatores adversos circunstanciais de uma vida que até agora não sei se valeu à pena vivê-la. Melhor sequer não ter vindo ao mundo! – Será que tendo vindo fiz a diferença de alguma forma? – Pelo sim, pelo não, nem sei ao certo, na realidade, o que sou e represento de verdade.

         Acredito que isto não é algo incrustado exclusivamente em minha consciência existencial, enquanto este corpo biológico que se submete no cotidiano às necessidades fisiológicas da vida, não é um diferencial negativista que persegue somente a mim mesmo, mas também a outras pessoas. Quisera fazer a diferença, mas acredito, sinceramente, que pouco ou quase nada cheguei a fazer. Tentar! = Bem que tentei, mas não acredito tenha sido compreendido!

         Afinal de contas, só fui ou sou nesta vida, nada mais, nada mesmo, do que um mero filho do conflite, de tantas adversidades vividas, que nem sei se importa mais viver ou morrer! – Talvez morrer seja o silêncio e o esconderijo derradeiro de tudo que acontece nesse transcurso tortuoso em que nasci, em que não sei se vivi e, que neste caminhar replicante, só tem que se esperar a morte chegar, acaso não haja um abreviamento da própria vida, o que nunca imaginei, mas tudo faz parte de como é intrinsicamente a vida de cada um de nós.

         Viver e morrer, são dois verbos antagonistas, que em determinados momentos, seria alvissareiro viver intensamente, noutros tão difíceis e dolorosos, talvez morrer seria o último ato de heroísmo que um ser humano poderia vir a cometer, porque a vida, se bem pensada, em determinados momentos não vale absolutamente nada, porque a gente já não tem mais paz, desaparece a higidez corpórea, a paz interior que apenas se sonhava, já não existe mais, então para que continuar a viver como filho do conflito, dos conflitos e dos aflitos?

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Manoel Modesto

Advogado, escritor, poeta e presidente da ABLA (Academia Buiquense de Letras e de Artes)

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