Nasci sob à Luz dos Candeeiros

Foi pelas mãos de uma parteira que fui extirpado do útero materno de minha mãe. Também pudera, lá no Sítio Cigano, em Buíque, não tinha médicos e o único de Buíque, era Dr. Zé Cursino Galvão. As pessoas tinham que se valer de parteiras, no caso do nascimento de mais uma vida e em doenças, os poucos enfermeiros ou com alguns conhecimentos médicos rudimentares, eram quem cuidavam daquelas pessoas acometidas por alguns males.

No mais, naquela vida rudimentar doutros idos, na crueza e dureza da vida, hospitais não existiam, médicos da mesma forma, então tinha que se partir para medicamentos e receituários de pessoas que rezavam em doentes, nas meizinhas, hábitos herdados pelos colonizados dos nossos nativos, que eram os remédios feitos em casa com misturas de plantas, alguns cozimentos, sangrias e coisas desse tipo para buscar curar alguém de algum mal, vítima de algum acidente ou de um ferimento.

Era numa espécie de vida dessa natureza que vivi os primeiros anos de vida. Queimei a mão esquerda, na parte oposta da palma, com um tijolo quente de um rudimentar fogão de alvenaria que minha mãe usava para cozinhar o feijão de cada dia, isto quando tinha, quando não, se virava não lembro nem como, mas era desse jeito. Para curar a ferida sofrida, a dor que sequer lembro que senti, mas dizia-me minha mãe que havia sofrido e chorado em demasia, tamanha era a dor, mas o remédio para me curar e tentar aliviar a dor, era um emplastro feito de ervas, plantas e até pó de café, para buscar sarar a queimadura que me deixou uma marca na mão ferida para sempre. Até hoje chego a olhar, fitar minha mão enrugada e não sei como foi a dor que senti na ocasião do tijolaço em brasa ardente que arrancou impiedosamente a pele do dorso de minha mão esquerda. Coisas de vida de menino traquina, buliçoso e que não parava de jeito nenhum.

Pior era a noite. Não existia luz na casa chinfrim onde rudimentarmente nos abrigávamos. Apenas sob à luz de alguns candeeiros em lamparinas de zinco com querosene, dependurados nas paredes, de onde através de pavios feitos de algodão previamente enrolados, ao se encharcar com o líquido inflável, nos fornecia uma luz opaca, amarelada e com um cheiro estranho que era expelido na fumaça pela queima daquele líquido usado para iluminar as casas de quem morava nos distantes rincões longe da cidade, da rua, como se costumava dizer na época.

Essa foi uma de tantas outras coisas pelas quais passei em minha vida, mas a luz mais clarividente na realidade, era justamente a da lua nova quando raiava por àquelas brenhas do Sítio Cigano, no areial fino em que costumávamos brincar as brincadeiras da época, eu e meus irmãos, durante o período noturno. Como eram belas as noites de luz nova. Nunca esqueci daqueles momentos que ficaram em minha mente, tampouco da marca que ficou grafada com ela para sempre em minha mão e que vai comigo para o túmulo.

A vida não era nada boa, mas era a possível de se viver. Depois de certo tempo, por insistência de minha mãe, viemos morar na cidade para aprender a ler e escrever. Na verdade não tinha luz elétrica ainda, mas os candeeiros ainda assim, era a nossa luz nas noites vividas da rústica cidade de Buíque lá por volta do final da década de 50 e início da de 60. Tinha um velho motor que produzia energia elétrica muito fraca que iluminava a rua, mas era só para dizer que existia, porque das poucas pessoas, só os ricos eram quem tinham luz em suas casas, assim mesmo, o velho motor à óleo diesel só funcionava até às nove horas da noite. Lembro que o barulho quando ligavam o velho motor, era ensurdecedor.

Então vivi tudo isso e não sei se isso era importante, bom ou ruim para mim. A infância não foi lá essas coisas, mas foi a possível que meus pais puderam me dar. Na cidade moramos na Rua Amélia Cavalcanti, na Rua São João, em frente da antiga Cadeia Pública de Buíque e numa casinha da atual avenida Coronel José Emílio de Melo, mais ou menos em frente da rua que desce para a casa de Blésman Modesto e por último, na mesma casa onde hoje resido. Esse foi o meu Buíque do quase nada que vivi. Não guardei muita coisa, mas tudo que ficou arraigado em minha mente, me deixou marcas profundas que não se apagarão jamais até os últimos dias de minha vida.

Por isso mesmo minha gente, quando vejo um Programa como o Luz Para Todos, incrementado pelos governos populares de Lula e Dilma, dos quais como presidente do PC do B, juntamente com o PT, participei de várias inaugurações em Buíque, sempre me lembrava desse tristonho tempo em que vivi sob à luz dos candeeiros e, quando via nos olhos das pessoas a alegria de chegar a acender o bico de luz em casa, comprar um geladeira, um ferro de engomar, isso sempre me fazia lembrar as agruras de um tempo duro que em mesmo vivi. Quem não viveu tempos como os meus, não pode falar com propriedade, tampouco com reprovação, daquilo que não sabe, não sofreu e não viveu.

A razão de deixar esse registro é o fato de que, de tanto ouvir tolices, aleivosias por aí afora, na verdade de nada sabe e melhor seria calar, porque só pode mudar o mundo, quem viveu as suas próprias agruras dentro de si, porque quem assim não procedeu, não pode jamais falar do que não sabe e não viveu.

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Manoel Modesto

Advogado, escritor, poeta e presidente da ABLA (Academia Buiquense de Letras e de Artes)

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