Três Anos Sem Meu Filho

            Há exatos três anos, meu querido e amado filho, Hérmerson Modesto, mais conhecido como “Mecinho”, numa segunda-feira logo depois da eleição presidencial do primeiro turno, iniciava ele, a comemoração pela vida logo pela manhã, depois de haver trabalhado em Maceió no primeiro turno das eleições presidenciais de 2018.

         Passou praticamente o dia juntamente com pessoas de sua convivência, nas costumeiras farras que corriqueiramente costumava fazer nos momentos de lazer e de alegria. Viveu àquele dia, segundo dia da semana, sem demonstrar ou saber que seria o seu último dia de sua vida.

         Meu filho era especial. Confiava muito nele, sem nenhum demérito para os demais. Ele tinha um quê de especial que o diferenciava de muitas outras pessoas, porque era humano, sensível e certamente, amado por uma grande maioria e, não se tinha conhecimento de que tivesse algum inimigo ferrenho, porque enquanto vida teve, o que mais soube fazer mesmo, foi amizades, com àquele seu sorrisão franco, aberto, de se elastecer a boca horizontalmente de um canto a outro e do seu jeito brincalhão de comportamento.

         Hémerson era desse jeito. Não se poderia dizer que tinha defeitos, embora se saiba que ninguém é perfeito. Mas se anjos realmente existem, ele era um. Sempre pronto para servir e tinha uma humanização do tamanho do mundo e no que seu coração permitia. Certa feita em um lugar onde destacava, uma criança no seu aniversário, desejou de presente, a participação da polícia e, no dia de comemoração, lá estava ele com a sua corporação sob seu comando e a menina, em seus braços, era toda sorrisos e felicidades.

         Qual não foi a surpresa para mim, ao saber naquela segunda-feira que nunca saiu de minha cabeça, por volta das 17h30 mais ou menos, que tragicamente veio a falecer na própria residência da mãe e de minha filha, onde ficava quando vinha de seu mister de PM de Alagoas, onde já tinha adquirido a promoção de sargento. Estava alegre pela promoção e por outros fatores que vinham acontecendo em sua vida envoltas em seu próprio interior.

         Pouco antes houvera telefonado para o seu celular e ainda pude falar com ele, que ainda balbuciou poucas palavras, para, logo depois, chegar para mim, a pior notícia de minha vida, que um pai pode ter recebido com a sua trágica morte. Nunca esqueci daquele dantesco dia. Até hoje ele não sai de minha cabeça. Filho não era para morrer antes de pai. Pela lei da vida, o pai desembarca na estação anterior do trem da vida enquanto o filho, prossegue para desembarcar na estação mais adiante.

         Mas ele não, por algum infortúnio da vida, veio a desembarcar antes de mim e isso me corrói o peito, o coração e a minha alma, isso porque, nada pude fazer para salvar a vida dele, coisa que mais queria ter feito se pudesse. Até minha vida teria dado para salvar a dele, mas isso impossível seria de vir a acontecer, porque o fator fenomênico morte é irreversível.

         Lembrei e lembro de tudo quando ele sofreu em Maceió no dia 07 de julho de 2008, quando da aflição dele para salvar minha vida, quando vim a sofrer um infarto. Não fosse ele não estaria aqui e, minha tristeza maior nesta vida, é não ter podido, digo isto de todo meu coração, por não ter conseguido salvar a vida dele e isso é a dor maior que vou sofrer até os últimos dias de minha vida.

         Agora nada mais há a ser feito, porque muitas coisas na vida da gente se podem ser mudadas e corrigidas, mas num caso específico desses, não há quem possa vir a nada modificar. Como bem o disse, se pudesse tudo faria para dar minha vida em troca da vida dele, mas sei ser impossível e ele que era uma pessoa tão querida e bondosa, deve certamente ter se transformado num pontinho qualquer nesse infindo Universo para nunca mais voltar e sei que nas minhas lembranças ele sempre vai permanecer até meu dormitar derradeiro.

         Só posso dizer que ele tinha muita coisa boa para dar e fazer em favor do próximo, mas com esse tolhimento inesperado de sua vida, infelizmente o que se deve ser focado é naquilo de bom, de positivo, de amoroso, de proveitoso que ele buscou fazer e fez durante esse seu curto espaço de tempo em que esteve junto de nós. Chegou a se graduar em enfermagem e ainda passou em concursos públicos em São João e Correntes, em Pernambuco. Em São João, chegou a trabalhar por quase dois anos e, em Correntes, depois de sua morte, chegou em minha residência um ofício de chamamento para ocupar a vaga de enfermeiro de posto, o que infelizmente não veio a acontecer. Nas duas cidades, prestou concurso, na primeira, passou em primeiro lugar e, em Correntes, em segundo lugar.

         Filho, só tenho uma coisa que se tu pudesses me ouvir, mesmo que fosse somente mais uma vez, diria que, fostes a flor que na vida plantei, das mais esplendorosas que puderam florescer para a vida, e sei que dentro de mim, até os últimos dias de minha vida permanecerás vivo até quando meu alquebrado coração puder pulsar o sangue jorrante da vida.

         Vou deixar aqui registrado um trecho de um dos seus escritos, como uma das pessoas que sonhavam por um mundo diferente e melhor: “É nesse contexto que surgem as paranóias modernas e suas vertentes psíquicas e fóbicas, a alucinação de consumir progressivamente acabou personalizando os objetos ao ponto de se viver obsessivamente em função de adquiri-los, muitas vezes se atolando em dívidas, ou não importando a licitude dos meios para alcançar o intento, nossa sociedade vive uma progressiva inversão de valores,enquanto ao nosso derredor existem várias pessoas marginalizadas, completamente excluídas do processo produtivo e consumista, precisando saciar suas necessidades vitais  e essenciais para tocar sua “videla”de uma forma humana digna, fazemos vista grossa, pois o humano é “objetizado”e o que subjetivamente precisa de nossos carinhos e apoio fraternal são nossos bens personalizados,o homem moderno perdeu a sensibilidade que possibilita o acesso ao bem maior que nos foi concedido pelo criador: O AMOR…

           Era desse jeito que meu filho buscava refletir a sua visão de mundo.

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Manoel Modesto

Advogado, escritor, poeta e presidente da ABLA (Academia Buiquense de Letras e de Artes)

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