Natal, Comemorar o Quê?

Quanta expectativa fazia no meu inconsciente de criança, quando meninote jogado à minha própria sorte, em que mesmo em condições de vida adversas e sem ter a menor noção de vida, só sabia por minha mãe dizer, “que o Natal era a comemoração do Menino Jesus, que nasceu para nos salvar.”
Na verdade, era só essa a noção que tinha desse período natalino. A vinculação com a religiosidade professado à grosso modo pela minha mãe. Meu pai não ligava muito para religião, mas minha mãe era ardente seguidora dos princípios cristãos.
Não via o Natal do ponto de vista de congraçamento festivo entre família, de reunião entre entes familiares para jantares, farras, comemorações e, claro, orações pelo nascimento do Cristo, que menino nascera para nos salvar. Peru não existia em nossa mesa natalina. Afinal, mal tinha o feijão e farinha para se comer, então a minha noção desse período tão decantado por alguns, não aprendi a cantar no mesmo diapasão de muitos que tinham nesse mesmo período o auge máximo da religiosidade cristã e de farta mesa na Ceia de Natal, como na última Grande Ceia que Jesus Cristo fez com os seus apóstolos.
Dessa maneira originária rudimentar, é que fui forjado a ver o período natalino, não como muitos veem, mas meramente como um período festivo em que quem tem condições de colocar uma mesa farta para comemorar nababescamente a noite natalina, do Menino Jesus, que se fez Salvador da Humanidade, no ensinamento bíblico da cristandade, assim o faz. Quem não, tem que se contentar com os seus limites dos quais detém, que segundo a própria religiosidade, é por vontade de Deus, com o que não concordo.
Mesmo no fervor da religiosidade de minha mãe, nunca consegui visualizar o natal por essa ótica. Com o tempo fui percebendo mais o lado capitalista, festivo do natal, o pecaminoso, laico mesmo, do que por essa outra visão dada pela doutrinação do Catolicismo Romano.
Dentro desse contexto é que, não vejo o Natal como algo a ser comemorado, muito menos em face do período pelo qual a humanidade está passando. Especialmente me volto mais para o Brasil, onde já estamos chegando na casa de 200 mil mortes provocada por esse misterioso, invisível e letal vírus que veio ao mundo fruto das mutações biológicas evolutivas da própria natureza, e que ocorrem de séculos em séculos. Castigo dos Céus, de Deus!? – Não acredito que seja. Apenas encaro os fatos como uma evolução que está causando sérios danos irreparáveis à humanidade e isso, não há quem possa impedir. Controlar até que o ser humano tem essa capacidade, porém poder para impedir que a natureza proceda as suas próprias mutações, disso o homem ainda não tem essa capacidade. Reversamente, o que a humanidade tem feito, é contribuir sobremaneira, para a destruição da própria natureza, disto tenho plena certeza.
Por isso mesmo, no meu ponto de vista, não há o que comemorar. Nem Natal, nascimento de Menino Jesus, de Salvador da Humanidade, coisíssima nenhuma. Muito menos, festa de virada de ano, porque assim o fazendo, estaremos sendo os carniceiros da morte, das quase duzentas mil vidas que já se foram em nosso Brasil e das mais de 500 mil no mundo todo.
Se é para se fazer algum ato, que o seja em favor dos que se foram sem pedir para morrer, porque não vejo como comemorar a vida, quando estamos no meio de uma pandemia provocadora de uma carnificina da morte.
Então como comemorar data de nascimento de Menino Jesus, do salvador da humanidade, quando na verdade ninguém foi capaz de salvar as tantas mortes de inocentes no decurso desta pandemia até o presente momento?







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Manoel Modesto

Advogado, escritor, poeta e presidente da ABLA (Academia Buiquense de Letras e de Artes)

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